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Ritos centenários transformam Rua do Ouvidor em palco de devoção durante a Semana Santa no Rio

Jornal CariocaJornal Cariocamarço 25, 2026 1386 Minutes read0

No coração do Centro do Rio de Janeiro, a Rua do Ouvidor se prepara para uma imersão profunda em fé e história. A Igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, fundada em 1750 e um dos marcos mais emblemáticos da região, será novamente o epicentro de uma programação de Semana Santa que transcende o religioso, oferecendo um verdadeiro mergulho em ritos que atravessam séculos e recriam a atmosfera das antigas tradições portuguesas em solo carioca.

Mais do que uma série de celebrações, a Semana Santa na Rua do Ouvidor é uma experiência sensorial que suspende o tempo no Centro da cidade. Portas se fecham, sinos ecoam e vozes surgem das janelas, transformando o espaço urbano, geralmente tomado pelo comércio e pela pressa, em um palco para um teatro litúrgico carregado de simbolismo. A iniciativa, promovida pela Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, atende aos apreciadores da música sacra, da liturgia e dos ritos tradicionais que moldaram o Centro do Rio, revivendo cerimônias que a capela elíptica dos mercadores realizou por mais de dois séculos, agora revitalizadas pela nova administração da Irmandade.

Abertura da Semana Santa: Domingo de Ramos e o ritual das portas

A vivência da Semana Santa inicia-se no Domingo de Ramos, com a reunião dos fiéis às 11h45 no histórico Arco do Teles para a procissão que marca o começo das celebrações. Dali, o cortejo segue em direção à igreja para um dos momentos mais singulares da programação: a cerimônia de abertura das portas. Inspirado em antigos ritos da cidade de Braga, em Portugal, o ato é conduzido por um diálogo cantado entre o celebrante e um coral posicionado nas janelas. Esta tradição será novamente revivida com o apoio do Diário do Rio, de onde partirão as vozes que respondem às invocações.

As portas da igreja permanecem fechadas até que, ao final do diálogo, se abrem solenemente, dando início à Missa de Ramos. A celebração é acompanhada por coral e orquestra, sob o comando da soprano Juliana Sucupira e seu Coral Astorga, que têm emocionado multidões desde a reabertura da capela em 2023, transformando as cerimônias em um espetáculo de fé e arte.

Reflexão e penitência: Ritos de segunda a quarta-feira

A segunda-feira da Semana Santa adota um tom mais introspectivo com o Ato Devocional da Coroa das Dores de Nossa Senhora, às 17h30. Fiéis se reúnem em torno de uma das mais profundas expressões de piedade mariana. A celebração é conduzida pelos padres Thiago Lemos e Victor Hugo, e marcada por um dueto de vozes e órgão, reforçando a atmosfera de recolhimento e contemplação.

Na terça-feira, o Ofício de Trevas, também às 17h30, apresenta um dos ritos mais impactantes da tradição católica. A igreja mergulha na penumbra, enquanto as velas do histórico candelabro, conhecido como tenebrário, são apagadas uma a uma. Resta apenas uma vela acesa, símbolo da luz que persiste mesmo diante da escuridão. Essa luz é progressivamente ocultada, numa dramatização litúrgica que remete à Paixão de Cristo, acompanhada por música sacra em dueto de vozes e órgão.

A quarta-feira é dedicada à preparação espiritual dos fiéis, com a Celebração Penitencial e atendimento de confissões, novamente às 17h30. É um convite à introspecção, ao exame de consciência e à reconciliação, em uma igreja que, ao longo dos séculos, tem sido um espaço de acolhimento no coração da cidade.

Paixão e tradição: Quinta e Sexta-feira Santa

A Quinta-feira Santa marca um dos momentos mais densos de significado litúrgico com a Missa da Ceia do Senhor e o tradicional rito do lava-pés, às 17h30. O lava-pés dos mercadores é uma tradição com mais de 200 anos. Em um gesto que remonta diretamente ao Evangelho, doze comerciantes — herdeiros vivos da vocação mercantil que deu origem à própria igreja — têm os pés lavados, numa cena que une fé, história e a cidade de forma quase indissociável.

A celebração contará com a presença de importantes lideranças do comércio carioca, como o presidente da Fecomércio, Antônio Florêncio Queiroz, e o presidente do Sindilojas, Aldo Gonçalves, além de outros comerciantes de grande relevância para o Rio de Janeiro. Este evento reforça o elo histórico entre a igreja e a vida econômica do Centro, que atualmente luta por sua revitalização. Não é apenas uma cerimônia; é a própria Rua do Ouvidor, com seus séculos de comércio e convivência, que se vê representada no altar. Presidida pelo padre Victor Hugo e acompanhada por coral e orquestra, a celebração adquire uma força singular, capaz de traduzir, em gesto e música, a permanência de uma tradição que segue pulsando no coração do Rio.

Na Sexta-feira Santa, às 15h00, ocorre o Solene Ato Litúrgico da Paixão do Senhor, seguido da tradicional cerimônia do Beijo da Cruz. A liturgia, marcada pela sobriedade e pelo silêncio, convida à contemplação profunda do mistério da Paixão, com música sacra executada em dueto de vozes e matracas, preservando a tradição sonora característica desse dia.

O ápice da fé: Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa

O ápice da Semana Santa ocorre no Sábado de Aleluia, às 18h15, quando o espaço urbano volta a ser protagonista. A celebração começa fora da igreja, na esquina da Rua do Rosário com a Rua dos Mercadores. Ali, diante de uma grande fogueira, são abençoados o Fogo Novo e o Círio Pascal — símbolos da luz de Cristo que vence as trevas. Uma grande procissão com velas acompanha o traslado do Círio até a igreja. Em seguida, já no interior da igreja, durante o canto do “Glória”, os sinos voltam a tocar com intensidade, enquanto flores e panos roxos caem, marcando visualmente a passagem da dor para a alegria da Ressurreição. O momento é acompanhado por um coral completo, com quinze vozes, criando um espetáculo litúrgico de rara beleza.

A celebração se encerra no esperado Domingo de Páscoa, ponto alto da liturgia católica, às 12h00, com Missa Solene, novamente com coral e orquestra, celebrada pelo padre Victor Hugo. É o momento da alegria plena, da luz e da renovação — um fechamento que reafirma não apenas a fé, mas também a permanência de tradições que resistem ao tempo.

Legado cultural e revitalização no Centro

Ao longo de toda a programação, a Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores reafirma seu papel como guardiã de uma herança espiritual e cultural que transcende o religioso. Em pleno Centro do Rio, entre ruas que testemunharam séculos de história, a Semana Santa não é apenas celebrada — ela é vivida, encenada e sentida, transformando a cidade em um raro encontro entre passado e presente. A capela, com cerca de 150 lugares sentados,

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