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Flávio abandona o Brasil e revela a fragilidade de uma direita atrelada aos Bolsonaro

Jornal CariocaJornal Cariocaoutubro 28, 2026 177 Minutes read0

No segundo turno da corrida presidencial, Flávio Bolsonaro conquistou 59.826.041 votos, quase 60 milhões de eleitores que escolheram apoiá-lo por diferentes razões, seja pela rejeição ao PT, convicções pessoais ou pelas opções disponíveis.

Este respaldo acarreta uma responsabilidade que persiste mesmo após uma derrota. Aqueles que solicitam a confiança do eleitorado para governar o Brasil devem estar prontos para permanecer e enfrentar as consequências de uma derrota.

A decisão de Flávio em se deslocar para os Estados Unidos, após receber uma ordem judicial que o impedia de deixar o Brasil, vai além de sua situação pessoal. Isso levanta uma questão crucial para seus apoiadores: ele estava comprometido com um projeto para o Brasil ou apenas buscando proteger sua própria posição?

Conforme informado pela Radioagência Nacional, na noite de terça-feira (27), Flávio cruzou a fronteira para a Argentina acompanhado da esposa e das filhas, e então embarcou em um voo particular com escala no Equador rumo a Miami. Essa informação traz à tona detalhes contraditórios que circulavam no dia anterior. Contudo, ainda não há confirmação sobre uma intenção definitiva de permanência no exterior.

Caso essa ausência se estenda e represente uma recusa em enfrentar os processos legais brasileiros, a mensagem política será clara: o candidato que conquistou a confiança de milhões deixa seus apoiadores com o ônus de justificar sua saída.

A derrota também exige liderança

Em uma democracia, não é necessário que o derrotado goste do resultado; é essencial que ele aceite a derrota nas urnas e exerça seu papel opositor dentro do sistema democrático.

Flávio poderia atuar como fiscalizador do governo Lula, organizar sua bancada e apresentar novas propostas para os próximos quatro anos. Também teria a possibilidade de recorrer à Justiça Eleitoral, desde que fundamentasse suas alegações com evidências consistentes.

O que não pode ocorrer é transformar a derrota em um pretexto para deslegitimar instituições sempre que elas contrariarem seus interesses, seguindo o mesmo padrão do pai Jair Bolsonaro, que deixou o país após perder para Lula em 2022 sem passar a faixa presidencial e criando um clima tenso após a derrota familiar nas urnas.

Após as eleições, o senador manifestou a intenção de solicitar a anulação da votação. Em seguida, passou a defender a cassação da chapa de Lula e Geraldo Alckmin por suposto abuso de poder. Contudo, essas reivindicações carecem de fundamentação sólida e julgamento adequado.

Obter quase 60 milhões de votos não confere superioridade à lei; pelo contrário, aumenta a obrigação de prestar contas à sociedade.

Investigações não são condenações, mas precisam ser enfrentadas

Flávio está sob investigação por suspeitas relacionadas à lavagem de dinheiro em um caso envolvendo o advogado Willer Tomaz e empresas do setor de apostas. Entre os pontos analisados está seu registro como “usuário master” de uma conta associada à Alcazar Holdings.

As defesas contestam qualquer irregularidade e afirmam que sua relação com Willer é baseada em amizade. É importante ressaltar isso: investigar não significa condenar, e todos mantêm o direito à presunção de inocência, inclusive adversários políticos. Entretanto, essa presunção não isenta ninguém do cumprimento das determinações judiciais.

O ministro Moraes ordenou a entrega dos passaportes e proibiu qualquer contato com Willer Tomaz. A PF havia sinalizado um risco ao ministro do STF relacionado à possível saída do território nacional ao solicitar essa medida. O prazo expirou na terça-feira sem que os documentos fossem apresentados.

Além disso, Flávio também enfrenta investigações relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, que aborda Jair Bolsonaro. Ele nega qualquer irregularidade nesse contexto.

O senador tem direito à defesa legal e aos recursos disponíveis para contestar decisões judiciais. O questionamento permanece sobre sua saída repentina do país após afirmar publicamente que não pretendia deixar o Brasil e entregaria os passaportes.

Uma família que concentra poder e transfere responsabilidades

Esse episódio expõe uma fragilidade no bolsonarismo: sua dependência de um núcleo familiar visto pelos apoiadores como autoridade política inquestionável.

Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar humanitária após ser condenado a 27 anos e três meses de prisão por delitos relacionados ao golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa armada. Essa situação resulta não apenas das disputas políticas, mas também de condenações judiciais concretas.

Eduardo Bolsonaro permaneceu nos Estados Unidos durante esse período e perdeu seu mandato como deputado federal devido ao excesso de faltas. A Câmara dos Deputados declarou essa perda em dezembro de 2025 devido à ausência em um terço das sessões deliberativas.

Com isso, agora Flávio também se afasta do Brasil.

Entretanto, isso não implica na retirada da família da política nacional. Carlos Bolsonaro foi eleito senador por Santa Catarina; Jair Renan tornou-se deputado federal pelo mesmo estado; Michelle conquistou uma vaga no Senado pelo Distrito Federal; Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, foi eleito deputado federal por São Paulo.

Portanto, o bolsonarismo continua ativo eleitoralmente. O desafio reside no fato de a família acumular mandatos enquanto seus líderes principais se afastam da responsabilidade direta por questões nacionais.

Michelle e o custo das disputas familiares

Michelle deve ser reconhecida como uma figura relevante na política atual. Sua eleição ao Senado e as estruturas organizacionais criadas dentro do PL Mulher conferem-lhe autonomia política significativa.

Não há evidências suficientes para afirmar categoricamente que ela seria candidata à presidência incapacitada pela própria família; existem registros documentais sobre conflitos internos por espaço político.

Em junho deste ano, Michelle declarou ter sido maltratada por Flávio durante uma conversa telefônica relativa às divergências sobre alianças políticas entre o PL e Ciro Gomes no Ceará. Essa declaração revelou publicamente tensões internas que vão além das diferenças ideológicas.

Na minha análise, as escolhas feitas por Flávio e como ele lidou com as divergências familiares reforçaram a ideia sobre uma sucessão controlada pelo sobrenome da família Bolsonaros sem abrir espaço para discussões mais amplas sobre quem realmente poderia representar melhor os interesses da direita brasileira.

A direita é maior que o bolsonarismo

Seria equivocado categorizar todos os eleitores de Flávio sob um único rótulo político. Existem conservadores, liberais, antipetistas e aqueles que tomaram decisões circunstanciais sem necessidade de submeter-se permanentemente ao controle familiar para se manter dentro da direita.

Identifico duas correntes dentro desse espectro político. Uma delas se mantém leal aos Bolsonaro interpretando quase todas as decisões judiciais como perseguições pessoais; outra busca interesses eleitorais próprios podendo optar por lideranças menos atreladas às crises familiares atuais.

Essa distinção representa uma análise política mais ampla em vez de um rótulo definitivo aplicável a milhões de pessoas distintas.

Tarcísio de Freitas surge como um candidato promissor nessa nova configuração política futura. Sua trajetória demonstra que competência administrativa não pertence exclusivamente a um único grupo político: ele atuou tecnicamente no governo Dilma Rousseff na diretoria executiva do DNIT em 2011.

Isso não altera sua posição ideológica ou garante moderação automática; mostra apenas que profissionais públicos podem transitar entre diferentes administrações e que alternativas políticas viáveis podem existir além dos laços familiares tradicionais na direita brasileira.

O eleitor não deve lealdade incondicional a ninguém

Em Niterói, observei estudantes, trabalhadores e apoiadores do Lula mobilizando-se nas ruas para expressar publicamente suas escolhas políticas durante o segundo turno eleitoral. Essa participação foi fundamental na experiência local daquele momento decisivo nas urnas.

Contudo seria precipitado concluir apenas com base nessa observação que todos os eleitores de Flávio estavam envergonhados ou silenciosos devido à falta de convicção; houve um contraste notável entre essa mobilização observada e as dificuldades enfrentadas pelo bolsonarismo ao oferecer respostas democráticas após a derrota eleitoral.

Percebo ainda críticas direcionadas à saída do senador vindas até mesmo entre seus apoiadores. Embora isso ainda não permita medir uma ruptura significativa em nível nacional, indica questões sérias que seus aliados terão que enfrentar futuramente.

Aqueles que votaram em Flávio não assumiram um compromisso incondicional em defendê-lo independentemente das circunstâncias; eles têm todo o direito de exigir explicações claras, rejeitar versões infundadas e demandar respeito às instituições sem abrir mão das próprias convicções políticas pessoais.

Se Flávio optar por permanecer fora do país como forma de evitar responder às autoridades brasileiras acerca das investigações contra ele, isso poderá gerar sentimentos profundos entre seus apoiadores relacionados ao abandono político efetivo dele. E assim cabe à direita decidir se continuará justificando cada ação da família ou se buscará construir projetos políticos autônomos independentes dessa estrutura familiar vigente.

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