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A venda passa e a reputação fica

Jornal CariocaJornal Cariocanovembro 18, 2025 2533 Minutes read0

Em um mercado que automatiza cada vez mais serviços, escutar virou luxo

Por Ana Maria Coelho*

 

Fala-se tanto em inovação que o termo parece ter perdido significado. Mas a verdade é que, no ambiente comercial, inovar continua sendo um ativo escasso. A maioria das equipes ainda confunde inovação com grandes disrupções, tecnologias, agora, inteligência artificial (IA) quando na realidade ela nasce de algo muito mais sutil: a mentalidade. Inovar é, antes de tudo, uma escolha de olhar. É decidir, todos os dias, fazer perguntas diferentes para problemas antigos.

Em vendas, isso significa entender que o cliente não busca apenas um produto, ele busca uma solução. Se o que ele procura for apenas preço, ele resolve em dois cliques pela internet. Mas se ele procura aplicabilidade e confiança, ele ainda quer conversar com alguém. A diferença é que esse alguém precisa entregar algo que o digital não faz: empatia, contexto e curadoria humana. E é exatamente aí que mora a escassez. Em um mercado que automatiza tudo, a escuta se torna luxo.

Costumo dizer que a venda passa, mas a reputação fica. A verdadeira inovação comercial está menos na técnica de vender e mais na capacidade de se tornar relevante para o cliente.  Relevância não se compra — se constrói – , uma interação por vez. Ela nasce quando o vendedor é capaz de perceber a dor do cliente antes mesmo que ela seja verbalizada. O relacionamento pode até abrir a porta, mas é a relevância que determina se ela continuará aberta.

O segredo está em começar pequeno. A inovação não acontece quando viramos o processo de cabeça pra baixo, mas quando fazemos pequenas perguntas incômodas: por que faço assim? Ainda funciona? Existe um jeito mais simples, mais rápido, mais humano? É nesse exercício diário de reflexão que a inovação se instala. É um hábito e hábitos, quando intencionais, transformam culturas. 

 

Inovar não é criar o tempo todo, mas desaprender o velho. É se predispor a olhar o “sempre foi assim” com desconfiança. Essa, talvez, seja a maior habilidade comercial dos novos tempos: cultivar uma curiosidade constante e genuína sobre o outro. Porque, enquanto o produto é o mesmo para todos, o cliente nunca é. E entender isso muda tudo.

Olhar para fora também é essencial. A inspiração nem sempre vem de dentro da área de vendas. Pode vir de um garçom que sabe o nome dos clientes, de uma terapeuta que escuta sem pressa, de um concorrente que está fazendo algo diferente. Benchmark é aprender com mercados distintos – observar o outro é um dos jeitos mais eficientes de repensar a própria entrega.

E sim, a inovação também tem sotaque. Vender em São Paulo é diferente de vender em Salvador que é diferente de vender em Brasília. Entender essa pluralidade é parte da estratégia. Cada região tem seu ritmo, sua linguagem, seu tempo de confiança. No Sul, a objetividade. No Nordeste, a conexão. No Sudeste, a urgência. O bom vendedor é aquele que se adapta sem perder sua essência e cultiva sua sensibilidade cultural. Porque, inovar também é traduzir benefícios em valor na língua de quem compra.

 

Talvez minha maior provocação para quem atua na área comercial hoje seja essa: você está vendendo um produto ou construindo autoridade? Está repetindo fórmulas que funcionaram ou criando formas de gerar valor?  A tecnologia evolui, a IA ajuda, os canais se multiplicam, mas a capacidade humana de gerar confiança continua sendo o diferencial mais raro do mercado.

A inovação não é sobre ter as respostas certas, é sobre fazer as perguntas certas e continuar curioso mesmo depois da venda. Em um tempo em que todos querem vender mais, o verdadeiro ato de inovação acontece quando cada venda deixa de ser transação e passa a ser transformação.

 

* Ana Maria Coelho é pedagoga, consultora e palestrante nas áreas de Liderança, Vendas, Empreendedorismo e Inovação. Há mais de 18 anos atua desenvolvendo pessoas e negócios com foco em resultados sustentáveis e relações autênticas. É coautora do livro Empreendedorismo Inovador focado em modelos de negócios e planejamento estratégico. Tem como propósito inspirar pessoas e organizações a aprender continuamente, transformar curiosidade em ação e fazer do potencial humano o diferencial que sustenta o futuro.

 

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CuriosidadeEmpreendedorismoInovaçãoMentalidadeRelevânciatransformaçãoVendas
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