- A China está construindo em Huizhou, na província de Cantão, o primeiro reator comercial baseado em um Sistema Acionado por Acelerador (ADS) que promete ser 100 vezes mais eficiente que os reatores convencionais, transformando resíduos nucleares em energia e reduzindo significativamente sua vida radioativa.
- A iniciativa chinesa visa transformar a gestão de resíduos nucleares, utilizando-os como fonte de energia e reduzindo drasticamente seu tempo de radioatividade. O projeto, em construção na província de Cantão, representa uma mudança no ciclo tradicional da energia nuclear, que até então tratava os resíduos apenas como um problema de armazenamento a longo prazo.
O reator chinês baseia-se em um Sistema Acionado por Acelerador (ADS), que opera em estado subcrítico, ou seja, não consegue manter uma reação nuclear em cadeia por si só. Para funcionar, o sistema depende de uma fonte externa de nêutrons, gerada por um acelerador de partículas. Entre os objetivos principais do ADS estão o aproveitamento dos resíduos nucleares como combustível, a redução da vida radioativa dos materiais mais perigosos, a melhoria da eficiência no uso do urânio e a incorporação de mecanismos de segurança passivos.
O sistema é projetado para consumir urânio até 100 vezes mais eficientemente que os reatores convencionais. Seu funcionamento envolve um feixe de prótons de alta energia que atinge uma mistura líquida de chumbo e bismuto, gerando um fenômeno conhecido como espalação. Esse processo produz uma grande quantidade de nêutrons que mantêm a reação de fissão dentro do reator e fragmentam os actinídeos presentes nos resíduos nucleares. Os actinídeos são os elementos mais problemáticos do combustível gasto, podendo permanecer ativos por milhares de anos. Ao serem bombardeados por nêutrons, eles se transformam em isótopos com uma vida útil muito mais curta.
Além disso, o sistema permite a reutilização do urânio-238, geralmente considerado resíduo em reatores convencionais, convertendo-o em plutônio-239, um material capaz de gerar energia por fissão. Um dos aspectos mais importantes do ADS é o controle da reação: se o acelerador for interrompido, o processo é automaticamente paralisado, eliminando o risco de reações descontroladas.
O principal desafio dos resíduos nucleares reside no longo período em que permanecem ativos. Em sistemas atuais, parte do combustível gasto continua perigosa por períodos extremamente extensos. O modelo proposto pelos reatores ADS busca encurtar esse horizonte temporal de forma significativa. As estimativas do projeto indicam que a vida radioativa dos resíduos poderia ser reduzida para menos de um milésimo do tempo original. Materiais que durariam centenas de milhares de anos passariam a permanecer ativos por apenas alguns séculos. Essa mudança alteraria substancialmente a abordagem do armazenamento nuclear, diminuindo a necessidade de soluções geológicas projetadas para escalas de tempo difíceis de gerenciar.
Embora o conceito de Sistemas Acionados por Acelerador não seja novo, sua aplicação prática em larga escala ainda é limitada. Desde os anos noventa, diversos designs foram propostos, mas poucos avançaram para fases operacionais. A China iniciou suas pesquisas em 2011 e, uma década depois, desenvolveu um protótipo com capacidade para aplicações industriais. O próximo passo é a construção de um reator de um megawatt nos próximos anos.
Outros países também estão investindo nesta tecnologia. A Bélgica, por exemplo, desenvolve o projeto MYRRHA, com uma potência prevista maior. Japão, Índia, Coreia do Sul e Rússia também mantêm programas de pesquisa e desenvolvimento de sistemas ADS. Na Europa, o projeto MYRRHA avança em etapas, com foco inicial no desenvolvimento do acelerador de partículas, buscando combinar funções experimentais e operacionais.
O desenvolvimento desses reatores faz parte de uma estratégia energética mais ampla da China, que visa reduzir a dependência de combustíveis fósseis e alcançar a neutralidade de carbono. O país tem investido significativamente em diversas tecnologias energéticas, incluindo energia nuclear de fissão e reatores de sais fundidos baseados em tório.
